Método e ferramentas Artigo · 6 dez 2025 · 4 min de leitura

Quando a gambiarra vira método e o método vira sabotagem

Por Marcelo Nascimento · publicado originalmente no LinkedIn

Caderno de identidade visual organizado ao lado de uma mesa caótica com post-its e tinta vermelha derramada

A verdade que ninguém gosta de admitir

A maior parte das marcas brasileiras nasceu improvisando. E isso não é um problema. É só a realidade.

Muita empresa nasceu porque o dono tomou uma decisão rápida, arriscada, no susto. Porque apareceu um cliente do nada. Porque a oportunidade surgiu antes do plano. Porque era agora ou nunca.

Esse começo caótico faz parte da nossa cultura empreendedora.

O problema começa quando o improviso não fica no começo. Ele vira método. Depois vira rotina. Depois vira cultura. E por fim vira um jeito de ser que ninguém questiona mais.

A partir desse ponto o caos deixa de ser energia de sobrevivência e vira um buraco de reputação.

Dei um jeitinho...
Dei um jeitinho...

A gambiarra como identidade

Toda empresa no Brasil tem uma história de gambiarra que deu certo. É quase um rito de passagem.

Só que algumas confundem isso com identidade. Começam a achar bonito. Começam a achar que funcionam bem assim. Começam a romantizar o caos.

A marca diz que é ágil mas no fundo está sempre atrasada. Diz que é criativa mas vive inventando solução porque não existe processo. Diz que é humana mas todo mundo trabalha esgotado. Diz que é flexível mas ninguém sabe quem aprova o quê.

Esse teatro pega mal. Porque a marca narra uma história e a cultura entrega outra.

E o cliente nunca acredita no discurso. Ele acredita no comportamento.

O caos como combustível até deixar de ser

O improviso tem sua beleza. Ele resolve o que precisa ser resolvido. Ele move, empurra, cria caminhos onde não existia nada.

Mas improviso não sustenta crescimento. Improviso não cria reputação estável. Improviso não substitui critério.

À medida que o time cresce, as decisões precisam de referências que possam ser compartilhadas. Quando tudo depende de uma solução improvisada, vale investigar onde faltam critérios, processos ou responsáveis.

E é aqui que muita empresa começa a quebrar.

Quando o time cresce sem referência. Quando o cliente cresce mais rápido que o processo. Quando o fluxo vira um labirinto e a decisão fica difusa. Quando cada pessoa faz do seu jeito.

O caos vira uma nuvem constante. Essa nuvem vira cultura. E essa cultura vira problema.

Diagrama Brand Intimacy da MBLM com os seis estágios da intimidade de marca em radar hexagonal

A contradição que destrói a reputação

O pior não é viver no caos. O pior é tentar maquiar o caos.

O rebranding aparece. O manual aparece. O discurso aparece. Os valores aparecem.

Mas a operação continua presa à improvisação.

O discurso sobe no palco e a cultura não sai do camarim.

E aí o cliente percebe a marca prometendo mais do que entrega. A empresa falando bonito e agindo mal. O time apagando incêndio. A experiência não se repetindo. A reputação ficando instável.

Nenhuma marca falha por falta de narrativa. Ela falha por falta de coerência.

O caos como sintoma e não como identidade

O caos não é DNA. É diagnóstico.

Ele mostra o que não foi estruturado. Aponta o que ninguém quis assumir. Evidencia a falta de clareza. Revela o que está sendo empurrado há anos.

E quando vira identidade a empresa perde algo fundamental. A capacidade de escolher quem é.

Porque quem vive reagindo não consegue se posicionar.

Brand Model Canvas é sistema!
Brand Model Canvas é sistema!

A virada

Transformar caos em sistema não é engessar a marca. É dar clareza para que ela possa ser livre.

Sistema não é burocracia. Sistema é ritmo. É consistência, alinhamento, repetição coerente.

Quando o caos vira método ele destrói. Quando o caos vira pensamento ele cria.

A energia criativa do improviso pode ser canalizada. A esperteza pode virar inteligência. A urgência pode virar prioridade real. A gambiarra pode virar insight mas não rotina.

E é aqui que a marca renasce. No momento em que decide parar de sobreviver e começa a construir.

A pergunta final

O caos ainda está te empurrando ou já começou a te engolir?

Porque uma marca pode nascer no improviso. Mas não pode depender dele para viver.

E quem quiser entender melhor o tema, em Feitas para durar, Jim Collins e Jerry Porras fazem um estudo profundo sobre como organizações constroem pilares reais e duráveis e mostram que empresas que duram décadas não são as mais criativas ou ágeis, são as que constroem sistemas coerentes. O improviso pode te levar longe no começo, mas só o critério te leva pro próximo século.

Peter Senge em A quinta disciplina dá um mergulho em sistemas, cultura e aprendizado contínuo. Senge prova que coerência é mais forte que improviso. Ele mostra como organizações que aprendem transformam caos em método sem perder energia criativa. Essencial para entender por que algumas empresas crescem e outras só reagem.

Se você quer transformar improviso em estratégia sem matar a essência da sua marca, me chama. Dá para organizar o caos e ainda usar ele a seu favor.

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Como essa ideia entra no trabalho? A improvisação vira método quando ganha estrutura. É o que os workshops de estratégia e processos fazem com o conhecimento que o time já tem. Na Drogasmil, isso virou um processo de expansão com mais de 25 etapas mapeadas e roadmap de doze meses.

Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn em 6 dez 2025.

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