Quando a gambiarra vira método e o método vira sabotagem
A verdade que ninguém gosta de admitir
A maior parte das marcas brasileiras nasceu improvisando. E isso não é um problema. É só a realidade.
Muita empresa nasceu porque o dono tomou uma decisão rápida, arriscada, no susto. Porque apareceu um cliente do nada. Porque a oportunidade surgiu antes do plano. Porque era agora ou nunca.
Esse começo caótico faz parte da nossa cultura empreendedora.
O problema começa quando o improviso não fica no começo. Ele vira método. Depois vira rotina. Depois vira cultura. E por fim vira um jeito de ser que ninguém questiona mais.
A partir desse ponto o caos deixa de ser energia de sobrevivência e vira um buraco de reputação.
A gambiarra como identidade
Toda empresa no Brasil tem uma história de gambiarra que deu certo. É quase um rito de passagem.
Só que algumas confundem isso com identidade. Começam a achar bonito. Começam a achar que funcionam bem assim. Começam a romantizar o caos.
A marca diz que é ágil mas no fundo está sempre atrasada. Diz que é criativa mas vive inventando solução porque não existe processo. Diz que é humana mas todo mundo trabalha esgotado. Diz que é flexível mas ninguém sabe quem aprova o quê.
Esse teatro pega mal. Porque a marca narra uma história e a cultura entrega outra.
E o cliente nunca acredita no discurso. Ele acredita no comportamento.
O caos como combustível até deixar de ser
O improviso tem sua beleza. Ele resolve o que precisa ser resolvido. Ele move, empurra, cria caminhos onde não existia nada.
Mas improviso não sustenta crescimento. Improviso não cria reputação estável. Improviso não substitui critério.
À medida que o time cresce, as decisões precisam de referências que possam ser compartilhadas. Quando tudo depende de uma solução improvisada, vale investigar onde faltam critérios, processos ou responsáveis.
E é aqui que muita empresa começa a quebrar.
Quando o time cresce sem referência. Quando o cliente cresce mais rápido que o processo. Quando o fluxo vira um labirinto e a decisão fica difusa. Quando cada pessoa faz do seu jeito.
O caos vira uma nuvem constante. Essa nuvem vira cultura. E essa cultura vira problema.
A contradição que destrói a reputação
O pior não é viver no caos. O pior é tentar maquiar o caos.
O rebranding aparece. O manual aparece. O discurso aparece. Os valores aparecem.
Mas a operação continua presa à improvisação.
O discurso sobe no palco e a cultura não sai do camarim.
E aí o cliente percebe a marca prometendo mais do que entrega. A empresa falando bonito e agindo mal. O time apagando incêndio. A experiência não se repetindo. A reputação ficando instável.
Nenhuma marca falha por falta de narrativa. Ela falha por falta de coerência.
O caos como sintoma e não como identidade
O caos não é DNA. É diagnóstico.
Ele mostra o que não foi estruturado. Aponta o que ninguém quis assumir. Evidencia a falta de clareza. Revela o que está sendo empurrado há anos.
E quando vira identidade a empresa perde algo fundamental. A capacidade de escolher quem é.
Porque quem vive reagindo não consegue se posicionar.
A virada
Transformar caos em sistema não é engessar a marca. É dar clareza para que ela possa ser livre.
Sistema não é burocracia. Sistema é ritmo. É consistência, alinhamento, repetição coerente.
Quando o caos vira método ele destrói. Quando o caos vira pensamento ele cria.
A energia criativa do improviso pode ser canalizada. A esperteza pode virar inteligência. A urgência pode virar prioridade real. A gambiarra pode virar insight mas não rotina.
E é aqui que a marca renasce. No momento em que decide parar de sobreviver e começa a construir.
A pergunta final
O caos ainda está te empurrando ou já começou a te engolir?
Porque uma marca pode nascer no improviso. Mas não pode depender dele para viver.
E quem quiser entender melhor o tema, em Feitas para durar, Jim Collins e Jerry Porras fazem um estudo profundo sobre como organizações constroem pilares reais e duráveis e mostram que empresas que duram décadas não são as mais criativas ou ágeis, são as que constroem sistemas coerentes. O improviso pode te levar longe no começo, mas só o critério te leva pro próximo século.
Peter Senge em A quinta disciplina dá um mergulho em sistemas, cultura e aprendizado contínuo. Senge prova que coerência é mais forte que improviso. Ele mostra como organizações que aprendem transformam caos em método sem perder energia criativa. Essencial para entender por que algumas empresas crescem e outras só reagem.
Se você quer transformar improviso em estratégia sem matar a essência da sua marca, me chama. Dá para organizar o caos e ainda usar ele a seu favor.
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Como essa ideia entra no trabalho? A improvisação vira método quando ganha estrutura. É o que os workshops de estratégia e processos fazem com o conhecimento que o time já tem. Na Drogasmil, isso virou um processo de expansão com mais de 25 etapas mapeadas e roadmap de doze meses.
Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn em 6 dez 2025.