Por que é tão difícil criar lovemarks no Brasil?(E o que fazer sobre isso)
Criar uma lovemark, aquela marca que não vive só de lealdade, mas de amor genuíno é sonho de qualquer marca.
Mas no Brasil esse caminho é mais tortuoso. E não é por falta de criatividade, nem de campanha boa. É por falta de uma coisa bem mais estrutural:
Confiança.
Segundo o Edelman Trust Barometer 2023, só 38% dos brasileiros confiam no governo. E nas empresas, o índice é só 49%, bem abaixo da média global.
Não para aí: a Datafolha (2022) mostra que 67% das pessoas desconfiam até do próprio vizinho.
Num país onde confiar é quase um risco, criar intimidade de marca não é só difícil. É quase subversivo.
Mas não impossível.
O déficit de confiança no Brasil não é detalhe. É contexto.
O conceito de lovemark (Kevin Roberts) se apoia em três pilares: mistério, sensualidade e intimidade.
Tudo isso só cresce onde existe... confiança.
E aqui a base está rachada.
Décadas de instabilidade econômica, escândalos, crises políticas e desigualdade cravaram uma cultura do “não confio até que me provem o contrário.”
Pra quem trabalha com marca, isso não é só pano de fundo. É desafio central.
Em 2024, a Kantar mostrou que 54% dos consumidores brasileiros trocaram de marca por acharem que ela agiu de forma antiética.
A pergunta é direta: como construir algo que gere amor em um mercado que vive na defensiva?
O caminho não é mágica. É método.
Autenticidade não é discurso. É prática.
Quando a confiança é baixa, fingir empatia não cola. Se a marca não entrega verdade, o público sente. E troca.
A Natura é exemplo.
Não vende só cosmético. Vende uma visão de mundo, sustentável, local, comunitária. Venda Amazônia. Isso não é storytelling. É supply chain, é modelo de negócio.
O jogo é esse:
- Mostra quem faz.
- Conta como faz.
- Assume o impacto, bom e ruim.
- Faz local, fala local.
Não é sobre parecer transparente. É sobre ser.
Conectar não é só emocionar. É gerar identificação.
No Brasil, cultura é vínculo. Quem ignora isso, vira ruído.
Quando o Skol Beats abraçou funk, Carnaval e cultura de rua, parou de ser só bebida e virou código de pertencimento pra uma geração.
+15% de afinidade entre jovens (Nielsen, 2024). Aqui não se compra atenção. Se constrói relação.
- Reflete o que o país é.
- Fala as linguagens daqui.
- Celebra, não estereotipa.
Intimidade não nasce de campanha. Nasce de comunidade.
Num país onde as instituições não seguram, quem segura são as redes, as de verdade.
O Magazine Luiza entendeu isso muito antes de muita gente. Fez do app uma plataforma de troca, cuidado e proximidade.
Resultado: 70% dos usuários ativos todo mês. Intimidade aqui não é CRM.
É escuta ativa. É criar espaços onde o consumidor não é lead. É gente. E faz parte da construção.
Promessa sem entrega é cancelamento certo.
Aqui, toda promessa vem acompanhada de um: “vamos ver se é verdade.”
E se não for? O mercado responde rápido, e não perdoa.
Lovemarks nascem quando a promessa encontra consistência.
Quando o discurso encontra entrega.
Quando a narrativa encontra gesto.
Crise não é exceção. É regra.
Se a sua marca só funciona em tempo bom, ela não funciona.
Aqui, consistência é vantagem competitiva.
O Itaú, nas enchentes de Recife, não ficou no discurso: colocou grana, gente e estrutura. E subiu 8 pontos no índice de confiança (Ipsos, 2023).
Marca que some na crise some da memória.
Quem empodera, constrói advocacy.
Quando a confiança é baixa, a recomendação vale ouro.
O Nubank virou lovemark porque não só vendeu conta. Vendeu dignidade bancária pra quem nunca teve.
Em 2024, 25% dos novos clientes vieram por indicação.
Lovemark não é quem tem mais mídia.
É quem tem mais gente disposta a dizer: “Vem, porque funciona.”
No Brasil, lovemark não é campanha bonita.
É empresa que aguenta ser lida sem legenda, sem sobreposição, sem discurso vazio.
É quem banca coerência. Na fala. Na prática. Na crise. E no cotidiano.
Porque num país onde confiança é escassa, ser amável é ser confiável. E ser confiável é ser extraordinário.
O resto é barulho.
Me conta: como você enxerga a construção de confiança em marcas no Brasil hoje?
Como essa ideia entra no trabalho? Antes de querer ser amada, a marca precisa ser clara. Um projeto de estratégia de marca resolve essa camada primeiro.
Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn em 20 jun 2025.