Branding Artigo · 22 nov 2025 · 3 min de leitura

Tem algo errado quando todo mundo começa a parecer verdadeiro.

Por Marcelo Nascimento · publicado originalmente no LinkedIn

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A autenticidade virou gênero de conteúdo. A vulnerabilidade, plano de marketing. E o LinkedIn virou palco onde cada post é um episódio de Humanos S.A., mas com Wi-Fi.

A emoção roteirizada

Vivemos um tempo em que chorar dá engajamento.

Executivos abrem o coração. Marcas falam de propósito. Todo mundo aprende com o erro, de preferência com legenda inspiradora e foto preto e branco.

A emoção foi ensaiada. A vulnerabilidade, editada. A verdade virou ativo de marca.

Guy Debord já avisava em A Sociedade do Espetáculo: o real foi substituído pela representação. O LinkedIn é o espelho perfeito disso. Uma vitrine de intenções.

A imagem da emoção passou a valer mais que a emoção em si. A autenticidade deixou de ser prática pra virar estética. E quanto mais a gente tenta parecer humano, mais artificial o discurso fica.

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Transparência que esconde

Byung-Chul Han chama isso de sociedade da transparência.

Tudo precisa ser mostrado, explicado, exposto. Só que quanto mais nos mostramos, menos conseguimos nos enxergar de verdade. A transparência total cria um tipo novo de opacidade, uma camada de brilho que mascara o vazio.

A vulnerabilidade, que deveria ser expressão de humanidade, virou artifício de comunicação.

A emoção passou a ter métrica. O silêncio perdeu valor. Quem fala com sinceridade demais parece descontrolado. Quem fala de menos, parece insensível.

Então a gente finge equilíbrio com posts cuidadosamente honestos.

A vulnerabilidade virou performance. E o público, cúmplice do espetáculo.

Quando o discurso engole a prática

O problema é que autenticidade não sobrevive ao desalinhamento.

Nenhuma marca é mais incoerente do que a que fala de empatia enquanto ignora as pessoas dentro dela. Nenhum profissional é mais artificial do que o que humaniza o feed e desumaniza o time.

Ser autêntico dá trabalho. Exige coerência quando ninguém tá olhando. Exige coragem pra sustentar as próprias contradições.

É muito mais fácil parecer verdadeiro do que ser.

Erving Goffman, lá nos anos 50, já explicava: a vida é teatro e nós somos atores em busca de aceitação social. O problema é que agora a peça não tem intervalo. A gente vive em cena o tempo todo.

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O paradoxo

Queremos autenticidade, mas premiamos a performance. Queremos vulnerabilidade, mas temos medo do que ela revela.

E nesse paradoxo criamos um mercado de verdades com acabamento emocional.

O que era humano virou conteúdo. O que era erro virou case. O que era íntimo virou estratégia.

A autenticidade, quando planejada demais, morre antes de nascer. E o silêncio, que antes era sinal de profundidade, virou lacuna no calendário de posts.

O convite

A questão não é parar de se mostrar.

É reaprender a se mostrar sem roteiro. É entender que autenticidade não precisa ser visível pra existir. Que coerência é o que sobra quando o personagem sai de cena.

Talvez o primeiro passo pra ser autêntico seja justamente esse: parar de tentar parecer.

Leituras que aprofundam: Guy Debord com o clássico A Sociedade do Espetáculo, Byung-Chul Han com Sociedade da Transparência e por fim, Erving Goffman com A representação do eu na vida cotidiana

Como essa ideia entra no trabalho? Fugir da mesmice pede posicionamento decidido, não estética emprestada. É o que um projeto de estratégia de marca entrega.

Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn em 22 nov 2025.

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