Toda empresa quer mudar o mundo. Mas mal consegue mudar a própria rotina.
O propósito virou narrativa obrigatória. Todo negócio precisa ter um "porquê" inspirador, uma causa maior, um impacto que transcende o lucro. E de repente, não basta mais entregar um produto bom, é preciso entregar sentido.
O problema é que o propósito, que deveria organizar, virou mais uma fonte de esgotamento.
Quando o propósito vira peso
Simon Sinek popularizou a ideia do comece pelo porquê. E faz sentido. Propósito dá direção, cria coerência, ajuda a filtrar decisões.
Mas o mercado pegou essa ideia e transformou em obrigação emocional.
Agora todo colaborador precisa "acreditar". Todo cliente precisa "se identificar". E toda ação precisa estar "alinhada ao propósito", mesmo quando a operação tá quebrada, o time tá exausto e a entrega tá atrasada.
O propósito deixou de ser bússola e virou cobrança interna infinita.
Eu vejo empresa pedindo paixão enquanto paga o mínimo. Falando de transformação enquanto repete os mesmos erros. Cobrando engajamento enquanto a liderança improvisa sem critério.
E o pior: chamando isso de cultura.
A armadilha do cansaço com causa
Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, explica algo fundamental: hoje não somos mais explorados por um patrão externo. Nós nos exploramos sozinhos. E fazemos isso achando que estamos nos superando.
O propósito corporativo entrou nessa lógica.
Ele cria a ilusão de que o esgotamento é legítimo, afinal, você está trabalhando por algo maior. Você não tá só batendo meta, tá mudando o mundo. Você não tá só cansado, tá comprometido.
E assim o burnout ganha verniz de missão.
A empresa não precisa mais cobrar. Você se cobra sozinho. E quando falha, não é a estrutura que tá errada, é você que não "abraçou" o suficiente.
O propósito virou a ferramenta perfeita pra sustentar o insustentável.
O propósito que não sustenta a prática
A incoerência entre discurso e prática não é novidade. Mas quando se trata de propósito, ela dói diferente.
Porque propósito mexe com expectativa. Com crença. Com a parte da gente que quer acreditar que o trabalho faz sentido.
E quando a promessa não se cumpre, quando o propósito fica no mural, mas não chega no corredor, o que sobra é desilusão. E desilusão repetida vira cinismo. Ou pior, vira cansaço.
Eu vejo gente boa sendo engolida por narrativas vazias. Lideranças repetindo mantras que não cabem na realidade. Marcas vendendo transformação enquanto a cultura segue intacta.
O propósito que não aparece no dia ruim não existe. E exigir que as pessoas acreditem nele é só mais uma forma de violência institucional.
Propósito como filtro, não como fardo
O propósito deveria fazer três coisas simples:
- Filtrar decisões, o que cabe e o que não cabe dentro do que a gente é.
- Alinhar expectativas, entre o que a marca diz e o que ela entrega.
- Organizar a cultura e dar clareza sobre como as coisas funcionam aqui dentro.
Quando o propósito faz isso, ele alivia. Ele tira ruído. Ele poupa energia.
Mas quando vira discurso motivacional, cobrança emocional ou justificativa pra sobrecarga, aí ele só cansa. E cansaço disfarçado de causa não é propósito. É exaustão corporativa.
A provocação final
Talvez o problema não seja a falta de propósito. Talvez seja o excesso dele.
Excesso de narrativa onde deveria ter clareza. Excesso de cobrança onde deveria ter estrutura. Excesso de discurso onde deveria ter prática.
O propósito virou o novo teatro corporativo. E enquanto a gente aplaude a performance, o time segue esgotado nos bastidores.
Então a pergunta não é qual é o nosso propósito? É: o nosso propósito sustenta quem trabalha aqui ou só quem assiste de fora?
Leituras que aprofundam: Simon Sinek com Start With Why e Byung-Chul Han com Sociedade do Cansaço
O primeiro mostra o que o propósito deveria ser. O segundo mostra no que ele se transformou.
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Como essa ideia entra no trabalho? Ambição grande precisa virar decisão pequena e datada. Os workshops de estratégia e processos fazem essa conversão.
Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn em 29 nov 2025.